Herança gélida.
Por que ainda lembro de você? Por que você insiste em permanecer na minha memória, um fantasma do passado, uma marca indelével? Estou aqui novamente naquele lugar tranqüilo...um lugar calmo. Tornaremos a nos encontrar onde não há trevas? Você foi embora antes mesmo de ter partido, mas, de alguma forma, permanece. A herança de um passado tão promissor, que tomou um rumo (não totalmente) inesperado. Nunca cheguei a te falar aquelas palavras. Não consigo dizer, e as palavras que guardei doem no meu peito. Novamente, a melodia de uma canção desconhecida. Crepúsculo iminente. A roleta-russa dos segundos é implacável... Sibilo a pergunta novamente, entre os dentes cerrados de ódio e decepção. Não me diga que é assim que tem que ser, que é melhor assim, você diz saber o que é melhor para mim, suas estimativas divergem da realidade.
O vento murmura alguma coisa. Você... ele me lembra você. Está aqui, sinto, ouço, mas quando tento tocá-lo, ele somente passa por mim. Imperturbável. Indecifrável. Vazio. Sinto as lágrimas que não conseguem emergir deste nada interior, um buraco negro que a tudo drena. Mas agora já não sei mais o motivo de ter voltado aqui. Este lugar, o aeroporto, a quadra onde você morava... sarcófagos de lembranças. Lugares que eu, inexplicavelmente insisto em visitar. Sei que não posso continuar revendo essas memórias como se fossem uma espécie de terço. Podem até dizer que eu parei no tempo, covarde demais para enfrentar a situação atual. Sim, estagnei em um lugar onde estava a vida quando esta ainda fazia algum sentido. Permaneço sozinho perante minha era de glória cristalizada. Estou imóvel por aquela voz psiquiátrica suave da razão que me diz que há uma realidade objetiva onde meu corpo e minha mente são um. Imóvel enquanto a sua voz se vai, os ecos dissipando-se como a brisa da madrugada, lentamente destituída de sua existência quando um novo dia amanhece. Novo? Outro? Diferente?
quarta-feira, 16 de maio de 2007
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